O que vale a pena levar das praias de ontem para as praias de amanhã? Os participantes passaram das memórias partilhadas a uma visão comum para a costa.

Relato do workshop
A memória coletiva como ferramenta para construir em conjunto o futuro das costas
O que vale a pena levar das praias de ontem para as praias de amanhã?
Foi com esta pergunta que decorreu, a 23 de julho de 2026, o terceiro workshop vivencial do projeto europeu Guardians of the Coasts, intitulado «Praias: Da Memória Coletiva à Visão Partilhada», dinamizado por Aspasia Protogerou e Giannis Sourelis em nome da Fotoessa – Centro de Educação, Investigação e Ação, no âmbito do programa de capacitação para adultos.
O workshop introduziu uma terceira dimensão educativa, distinta, na metodologia do projeto. O primeiro workshop centrara-se na capacitação de uma comunidade de cidadãos ativos através da narrativa, enquanto o segundo explorara a relação entre as pessoas e o lugar através da Investigação Narrativa. O terceiro utilizou a memória coletiva como ponto de partida para a construção conjunta de uma visão partilhada sobre o futuro das costas.
As praias não são apenas paisagens naturais ou espaços de lazer. São lugares de história, cultura, memória e experiências humanas. Compreender a forma como as gerações anteriores comunicaram, criaram, procuraram refúgio e viveram nas costas pode ajudar-nos a reconhecer que valores e práticas vale a pena preservar e transmitir ao futuro.
Nesta lógica, a história não foi tratada como uma simples retrospetiva do passado, mas como uma ferramenta educativa viva que promove o diálogo, a reflexão crítica, a cidadania ativa e a construção coletiva de uma visão partilhada.
Três percursos pela história das costas
O processo educativo começou com três intervenções de pessoas com profundo conhecimento da história e do património cultural da região.
O arqueólogo e investigador Nikos Moraitakis apresentou as praias como lugares de comunicação desde a Antiguidade até aos nossos dias. Destacou a importância dos marcos costeiros e das antigas estações de sinais de fogo (fryktories), que integravam redes de transmissão de mensagens ao longo da costa e para o interior.
Zacharo Fratzeskou, investigadora da história de Palaia Fokaia, apresentou as praias como lugares de refúgio e de criação. Através de testemunhos pessoais e registados, deu a conhecer a experiência dos refugiados da Ásia Menor que se fixaram na região depois de 1922: as dificuldades da vida em tendas, a entreajuda que se desenvolveu entre eles e a transmissão do seu saber marítimo e da sua tradição cultural ao novo lugar.
Giota Drakou, investigadora de etnografia local, apresentou as praias como lugares de lazer e de vida social. Recorrendo a testemunhos e a material fotográfico, descreveu a forma como as famílias da região de Mesogeia passavam os meses de verão junto à costa, construindo abrigos improvisados e conjugando o descanso com a vida em comunidade, os jogos, o canto e o contacto humano.
Das três intervenções resultaram os quatro conceitos-chave que constituíram o eixo do workshop:
Comunicação – Refúgio – Criação – Lazer.
Do conhecimento histórico à aprendizagem coletiva
Em seguida, os participantes dividiram-se em grupos de trabalho mistos. Cada grupo trabalhou um dos quatro conceitos, analisando os aspetos positivos e negativos tanto do passado como do presente.
O objetivo não era comparar as diferentes épocas para determinar qual tinha sido a «melhor». Os participantes foram convidados a identificar o que não se deve perder do passado, o que precisamos de deixar para trás, que elementos do presente vale a pena manter e o que precisa de mudar.
Através deste processo, o conhecimento histórico transformou-se em ponto de partida para o diálogo, a reflexão crítica e a aprendizagem coletiva. Os participantes não foram recetores passivos de informação: utilizaram as narrativas históricas para repensar o presente e imaginar o futuro.
Os valores e as práticas que queremos levar para o futuro
Embora cada grupo tenha trabalhado um conceito diferente, os resultados revelaram uma convergência notável.
Surgiram repetidamente valores comuns, como:
a liberdade, a cooperação, a solidariedade, a comunicação humana, a criatividade, a simplicidade, a educação, a consciência coletiva e a responsabilidade para com o bem comum.
Ao mesmo tempo, os grupos propuseram práticas que podem contribuir para moldar as praias do futuro:
o contributo pessoal voluntário, a proteção dos recursos naturais, a economia circular e de troca, a aprendizagem vivencial e o jogo, bem como a preservação da memória histórica e da riqueza cultural.
Os participantes abordaram assim as praias não apenas como espaços naturais ou turísticos, mas como lugares onde se constroem comunidades, se formam relações humanas e se transmitem valores culturais.
Desta forma, o workshop alcançou o seu principal objetivo: transformar a memória coletiva numa visão partilhada para as praias do futuro.
A experiência dos participantes
As fichas de avaliação confirmaram o impacto educativo positivo do workshop. Os participantes descreveram a experiência como interessante, significativa e criativa.
Atribuíram especial importância:
- ao contacto com aspetos desconhecidos da história local,
- à troca de diferentes perspetivas,
- ao trabalho em grupo,
- e à possibilidade de colaborar com pessoas que até então não conheciam.
Muitos referiram que o workshop os ajudou a perceber que a proteção das praias não está ligada apenas à salvaguarda do ambiente natural. Está igualmente ligada à preservação da memória histórica, dos valores comuns e da identidade cultural das comunidades locais.
Da memória coletiva à cidadania ativa
O terceiro workshop contribuiu de forma substancial para os objetivos do Guardians of the Coasts, afirmando a memória coletiva como uma poderosa ferramenta de educação de adultos, de cidadania ativa e de participação cívica.
A proteção sustentável das costas não depende exclusivamente do conhecimento científico, das soluções técnicas ou das políticas públicas. Depende também de comunidades de pessoas que conhecem a história do seu lugar, reconhecem os valores que as unem e participam ativamente na construção do seu futuro comum.
O workshop confirmou mais um princípio fundamental da abordagem educativa do projeto:
A memória coletiva não diz respeito apenas àquilo que recordamos do passado. Diz respeito, sobretudo, àquilo que escolhemos levar para o futuro.
As nossas praias.
Um bem comum.
Uma responsabilidade partilhada.
Um futuro partilhado.
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