Através da investigação narrativa, os participantes exploraram como certas praias marcaram as suas vidas e identidades — e porque é que os lugares que amamos se tornam os lugares que queremos proteger.

Relato do workshop
Workshop 2 – Investigação Narrativa (Narrative Inquiry): A narrativa como ferramenta de reflexão pessoal, de ligação humana e de atribuição de sentido à relação entre as pessoas e o lugar
Afinal, o que é uma praia?
É um lugar natural? Um espaço de lazer? Um ponto no mapa? Ou será muito mais do que isso: um lugar de memória, de relações e de identidade pessoal?
Foi com estas perguntas que se concebeu o segundo workshop vivencial do projeto europeu Guardians of the Coasts, intitulado «As Praias como Marcos das Nossas Vidas», realizado pela Fotoessa – Centro de Educação, Investigação e Ação a 4 de julho de 2026, no âmbito das ações de capacitação (capacity building) do projeto.
O workshop recorreu à metodologia da Investigação Narrativa (Narrative Inquiry), abordando a narrativa não como um simples relato de acontecimentos, mas como um processo de reflexão pessoal e de atribuição de sentido à experiência. O objetivo não era recolher memórias nem registar histórias sobre praias. Pelo contrário, pretendia-se criar um espaço educativo seguro onde os participantes pudessem explorar a forma como determinados lugares influenciaram as suas vidas e contribuíram para moldar a sua identidade pessoal e social.
Desde o início do workshop, os próprios participantes construíram em conjunto o enquadramento de funcionamento, através da metáfora simbólica do «Tapete Voador». Em vez de lhes serem apresentadas regras predefinidas, foram convidados a identificar que atitudes e comportamentos permitiriam que a «viagem» das histórias decorresse com segurança, respeito e confiança. Através deste processo, destacaram-se como princípios fundamentais a escuta ativa, a empatia, a honestidade, a participação em pé de igualdade, o respeito pela experiência de cada um e a ausência de qualquer forma de avaliação.
Em seguida, cada participante contou uma história pessoal ligada a uma praia que deixou uma marca indelével na sua vida. As narrativas abrangeram um vasto leque de experiências: memórias de infância, momentos em família, amizades, amores, perdas, decisões importantes, momentos de liberdade, de mudança pessoal e de procura interior. Embora cada história fosse única, tornou-se gradualmente claro que, por detrás dos diferentes percursos pessoais, emergiam experiências e valores humanos comuns.
O processo foi enriquecido com uma atividade de mapeamento visual, na qual os participantes assinalaram num mapa da Grécia a praia associada à sua história. Criou-se assim um mapa simbólico de memórias pessoais, que evidenciou tanto a diversidade geográfica das experiências como o espaço cultural comum que liga as pessoas às costas gregas.
Um elemento determinante da metodologia foi a escuta ativa. Em vez de comentarem ou avaliarem as narrativas, os participantes registaram palavras que exprimiam as emoções, os valores e os conceitos que cada história despertava neles. No final do workshop, estas palavras foram reunidas no coletivo «Mapa de Emoções e Valores Humanos Comuns», que espelhou a marca emocional e de valores partilhada por todas as narrativas.
O resultado foi particularmente interessante. Embora as histórias se referissem a lugares, épocas e percursos pessoais diferentes, os conceitos que se repetiam eram surpreendentemente comuns: nostalgia, confiança, alegria, amor, serenidade, liberdade, gratidão, intimidade, aceitação, amizade, bondade, ligação humana e respeito. O «Mapa Emocional das Praias» mostrou que, apesar das diferentes experiências das pessoas, os valores mais profundos associados a lugares significativos apresentam semelhanças notáveis.
Os questionários de avaliação do workshop confirmaram esta mesma imagem. Os participantes descreveram a experiência como significativa, comovente e humanamente calorosa. Muitos referiram que, através das histórias dos outros, reconheceram elementos da sua própria vida, e vários sublinharam ter percebido quantas emoções e vivências podem partilhar pessoas que, até então, eram desconhecidas entre si. Foi feita uma referência especial à importância da escuta ativa, ao valor da aceitação sem julgamento e à criação de um espaço seguro onde cada pessoa se pode exprimir livremente. Paralelamente, vários participantes salientaram que o workshop os ajudou a refletir sobre a sua relação com o mar, a valorizar ainda mais a importância das praias nas suas vidas e a compreender que as histórias pessoais podem funcionar como pontes de comunicação e compreensão entre pessoas diferentes.
Enquanto ação educativa de capacitação para adultos, o workshop evidenciou o potencial da Investigação Narrativa como metodologia que promove a reflexão pessoal, a escuta ativa, a empatia e a capacidade de reconhecer experiências humanas comuns. A aprendizagem não resultou da transmissão de conhecimentos, mas do encontro entre diferentes percursos pessoais, através dos quais os participantes redefiniram tanto a sua relação com os lugares como a sua relação com as outras pessoas.
Ao mesmo tempo, o workshop contribuiu de forma significativa para os objetivos do Guardians of the Coasts, mostrando que a proteção do litoral não é exclusivamente uma questão de conhecimento ambiental ou de intervenções institucionais. Pressupõe laços pessoais com o lugar, o cultivo da empatia e o reconhecimento de que as experiências humanas comuns podem constituir uma base sólida para a cidadania ativa, a coesão social e o cuidado com os bens comuns.
As histórias, os valores e as conclusões que emergiram durante o workshop serão aproveitados nos próximos workshops educativos do projeto e contribuirão para a definição da metodologia educativa do Guardians of the Coasts, documentando a forma como a experiência pessoal, a memória coletiva e o conhecimento local podem reforçar a educação ambiental e a participação dos cidadãos.
O workshop confirmou um dos princípios fundamentais do projeto:
As pessoas protegem aquilo que sentem fazer parte da sua vida.
Quando as praias são reconhecidas não apenas como paisagens naturais, mas também como lugares de memória, de relações e de identidade pessoal, a sua proteção deixa de ser apenas uma obrigação ambiental e torna-se uma escolha profundamente humana.
As nossas praias.
Um bem comum.
Uma responsabilidade partilhada.
Um futuro comum.
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